Archive for the 'O que ficou de fora do livro' Category

Ricos e pobres

novembro 5, 2007

Muito da democracia teve como objetivo reduzir a desigualdade entre os que tinham mais e os que tinham menos. Aristóteles dizia claramente que a soberania deveria estar com a massa do povo, pois se deseja que todos tenham direitos iguais. Enfim, apesar de viverem em uma sociedade escravocrata, alguns gregos ilustres tentaram minimizar as diferenças entre seus cidadães. Péricles foi outro desses. Para ele, todos deveriam participar das assembléias políticas, em que as desavenças poderiam ser resolvidas pelo diálogo. Em um dado momento, Péricles percebeu que, muitos pobres preferiam ficar trabalhando a ir participar das reuniões que não davam remuneração alguma. Em 460 a.C, quando ele tornou-se líder do Partido Popular Democrático, começou a pagar um salário para os principais cargos públicos. Os primeiros a receber foram os arcontes, representantes das nove tribos da cidade que eram eleitos por sorteio. Foi assim que surgiram os funcionários públicos. PS: Meu notebook morreu. Assim, estarei atualizando o blog com alguma dificuldade em novembro. Em dezembro, voltarei com fotos da Grécia, tiradas pelo simpático casal Rubens e Maria Inês, que acabaram de voltar de lá. Tem até foto de penico grego para criança.

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Que tal um porre?

setembro 30, 2007

Na Grécia Antiga, o porre alcoólico era tido como um mergulho do deus Dioniso na pessoa. Esse era o deus da irregularidade, da irreverência, e era sempre muito bem-vindo goela abaixo. O bebedor entrava em êxtase, palavra grega que significa “sair de si mesmo”. Havia bêbados incômodos e bêbados sociáveis.

No livro O Banquete, Platão narra uma deliciosa história de como Alcibíades, de fogo, atrapalha um simpósio filosófico e deixa Sócrates totalmente desconcertado.

Coroado com flores, coberto de fitas  e amparado por uma flautista e por amigos amigos, Alcibíades entra no meio de um simpósio. Quando chega, todos o aclamam e pedem para que ele tome seu lugar à mesa.

Alcibíades se senta entre o anfitrião e Sócrates, aparentemente sem vê-lo. O filósofo precisa se afastar para dar lugar ao novo conviva.

Quando Alcibíades enfim vê Sócrates (ou dá a entender isso), exclama: “Por Héracles, o que é isso! Continuas a perseguir-me e te emboscas aqui, conforme o teu costume de aparecer justamente nos lugares em que menos espero te encontrar!”.

 Sócrates, todo sério, reclama. Mas os participantes, em vez de censurá-lo, deixam Alcibíades à vontade.

O que ele fala em seguida é o texto conhecido como o Elogio de Sócrates.

Para quem te o livro O Banquete em casa, vale a leitura.

Classificação indicativa

setembro 18, 2007

É preciso controlar o que as crianças assistem, já dizia o bom e velho Aristóteles.

Sim, o acesso dos pequenos às coisas dos adultos era uma preocupação na Grécia Antiga. Os gregos não falavam de televisão ou de cinema, claro. Falavam das pinturas, das peças de teatro (comédias, principalmente) e das palavras obscenas que os adultos diziam.

O trecho em que Aristóteles fala disso está perdido no livro Política, onde versa sobre as formas de governo, o cidadão perfeito e outras coisas assim. Tá lá o grande sábio dizendo:

 “É razoável afastar das crianças todas as coisas grosseiras que possam machucar os olhos e os ouvidos”.

Ou ainda:

“Desde a mais tenra meninice, os jovens devem jamais tenham a oportunidade de ouvir ou falar essas coisas”, que ele chama de “indecência proposital ou qualquer outro vício”.

Esse controle, segundo ele, deve ser feito até a idade em que as crianças já possam tomar parte nos banquetes onde se tomava o vinho.

E que idade seria essa?

Segundo Platão (essa história está na página 169 do livro O Calcanhar do Aquiles), não se deve dar o vinho para menores de 18 anos, para não se “lançar lenha ao fogo”. Depois disso, dizia Aristóteles, a “educação os colocará ao abrigo desses perigos”.

Freud e a Grécia Antiga

setembro 2, 2007

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No livro O Calcanhar do Aquiles, reservei um pequeno trecho para falar de Freud e o complexo de Édipo. Tá lá, na página 50. Mas Freud pegou ainda muitas outras histórias dos antigos gregos para exemplificar suas idéias. Aí vai: 

Prometeu, que roubou o fogo do Olimpo para dar aos homens, transportou a chama em um pau oco, um caule de funcho. “Se estivéssemos interpretando um sonho, tenderíamos a considerar esse objeto como um símbolo do pênis”, escreveu Freud em A Aquisição e o Controle do Fogo. A chama, por sua vez, também é interpretada assim. “A forma e os movimentos de uma chama sugerem um falo em atividade. Não pode haver dúvida a respeito da significação mitológica da chama como um falo”. Fênix, a ave que “tão logo é consumida pelo fogo, surge rejuvenescida mais uma vez” é muito provavelmente “uma alusão ao pênis que surge rejuvenescido, depois de se haver relaxado”. 

A Hidra de Lerna, monstro que foi vencido por Hércules em um de seus doze trabalhos, era um monstro da água com inúmeras cabeças, sendo uma imortal. “A cabeça imortal, sem dúvida, é o próprio falo, e sua destruição significa a castração”. Mais?  

A Medusa, com seus cabelos de serpente, também entrou nessa história. As serpentes, “servem como mitigação do horror por “substituírem o pênis, cuja ausência é a causa do horror. Isso é uma confirmação da regra técnica segundo a qual uma multiplicação de símbolos de pênis significa castração”. Esse trecho está no texto A Cabeça da Medusa 

medusa.jpg 

Chega, né?

 No livro, preferi deixar essa baixaria de fora. Mas no blog…  

Começando pelo umbigo

agosto 23, 2007

Estava pensando em uma forma de inaugurar esse blog, quando me veio um estalo. 

Que tal começar pelo umbigo, esse buraquinho estranho tão ligado ao nosso nascimento? 

Taí uma história legal de lembrar. Quem conta essa é Aristófanes, o comediante. O trecho está no livro Banquete, de Platão. É aliás, uma continuação de uma história que está na página 82 do livro O Calcanhar do Aquiles. Primeiro, vou resumir a história que está no livro. Depois, explico a origem do umbigo. Aristófanes conta em O Banquete que, no início, todos os seres humanos eram duplos. Isto é, seres com quatro braços, quatro pernas, quatro orelhas e por aí vai. Havia duplos-homens, duplas-mulheres e duplos misturados (metade homem, metade mulher). Eram extremamente fortes e tinham grandes pensamentos em seus corações. Um dia, tramaram escalar os céus e atacar os deuses que viviam tranqüilamente no Olimpo. Ao tomarem conhecimento do caso, as divindades ficaram em dúvida quanto ao que fazer. Zeus, após muito refletir, teve uma idéia genial: cortá-los em dois. Separados por Zeus, cada um saiu à procura da tampa certa para sua panela. Os que faziam parte de um duplo-homem foram atrás de um homem. Os que faziam parte de um duplo-mulher, de uma companheira. Os que anteriormente eram andróginos compunham a maioria dos humanos.  

Agora vamos ao umbigo.  

Zeus cortou os humanos assim como “cortamos os ovos com um fio de cabelo”. Em seguida, ordenou a Apolo (o deus bonitão da música, do céu azul) que curasse as feridas e que virasse o rosto dos cortados e o pescoço para o lado em que a separação havia sido feita. Assim, o homem poderia contemplar o corte e se tornar mais humilde. Apolo deu volta ao rosto e puxou de todas as partes a pele para a região que agora chamamos de ventre, e aí, em seu centro, costurou-a assim como se costura um saco, deixando uma pequena cavidade. Pronto. Adivinhou o que é isso?